Mulher morta em deslizamento na Brasilândia já havia relatado em entrevista medo de morar em encosta: 'Não tenho outro lugar'
16/10/2026
(Foto: Reprodução) Mulher morta em deslizamento na Brasilândia já temia morar em área de risco há 2 anos
A morte de Rosa Fidelis Gaspar, de 47 anos, soterrada após um deslizamento de terra provocado pelas chuvas no Jardim Paraná, na Brasilândia, Zona Norte de São Paulo, reacendeu o alerta sobre os riscos enfrentados por moradores que vivem em áreas de encosta na capital. Há quase três anos, Rosa já relatava o medo de morar no local em uma entrevista ao SP1.
A equipe de reportagem voltou nesta sexta-feira (16) ao bairro onde Rosa morreu. Moradora antiga da região, ela estava sozinha em casa na tarde do deslizamento, que atingiu o imóvel depois que parte do terreno acima cedeu.
Em janeiro de 2024, durante uma reportagem sobre os riscos de viver na encosta de um morro, Rosa contou que permanecia no local porque não tinha outra opção de moradia.
“Porque eu preciso. Porque eu comprei aqui e eu preciso. Eu não tenho outro lugar pra eu morar”, disse na ocasião.
Rosa Fidelis Gaspar, de 47 anos, morreu soterrada após deslizamento de terra no Jardim Paraná, na Zona Norte de SP
Reprodução/TV Globo
Na época, Rosa também relatou que havia sofrido um acidente dentro de casa e que, por causa disso, estava com dificuldades para andar. Segundo ela, chovia muito no momento do acidente, e a água já havia invadido o imóvel.
“Com fé em Deus eu volto a andar, que eu tenho fé que eu volto a andar”, afirmou.
Moradores convivem com medo e tristeza
Pouca coisa mudou no Jardim Paraná desde a reportagem de 2024. Os moradores continuam expostos aos riscos de deslizamentos e enchentes, e a morte de Rosa aumentou a tristeza e o medo de quem vive na região.
Cleoneide Lourenço da Silva Tramare, aposentada, se emocionou ao falar sobre a situação do bairro.
“Difícil, muito difícil, meu coração chora... muito difícil”, disse.
Questionada sobre o motivo da tristeza, ela respondeu: “Por tudo, por tudo, por tudo que já aconteceu e que anda acontecendo”.
O Jardim Paraná tem aproximadamente 6 mil moradores e está classificado pela Prefeitura de São Paulo na categoria de risco muito alto para deslizamentos de terra e enchentes.
Na parte mais alta do morro, é possível ver casas construídas junto aos barrancos. Foi de um trecho acima da residência de Rosa que a terra deslizou e atingiu o imóvel onde ela estava.
A morte da moradora deixou familiares, amigos e vizinhos de luto. Rosa será lembrada pela força e pela persistência diante das dificuldades de viver em uma área sujeita a desastres provocados pelas chuvas.
Capital tem quase 194 mil moradias em áreas de risco geológico
Segundo o Plano de Prevenção às Chuvas da Prefeitura de São Paulo, a capital tem quase 194 mil moradias em áreas de risco geológico, sujeitas a deslizamentos de terra e quedas de barreiras.
Desse total, mais de 12 mil moradias estão em áreas classificadas como R4, categoria que indica risco muito alto. O Jardim Paraná, na Brasilândia, é uma dessas regiões.
Prefeitura diz que tentou retirar famílias
Em nota, a Prefeitura de São Paulo informou que, nos últimos três anos, tentou repetidas vezes retirar as famílias que vivem no local. Segundo a administração municipal, foi oferecido auxílio-aluguel, mas os moradores não aceitaram.
No fim de setembro, a prefeitura recorreu à Justiça para conseguir acesso a cerca de 300 moradias em áreas de risco muito alto. A Justiça autorizou a realização de vistorias e o cadastramento das famílias, mas não permitiu a remoção preventiva.
Após o deslizamento que provocou a morte de Rosa, 11 imóveis foram interditados. Uma nova vistoria estava prevista para esta sexta-feira (16).
A prefeitura informou ainda que já retirou 71 famílias de outro trecho da região, no Córrego do Bananal. No local, o município realiza obras de drenagem e canalização para reduzir os riscos.
Velório e enterro
O velório de Rosa Fidelis Gaspar começa às 13h30 desta sexta-feira (16), no Cemitério Dom Bosco, na Estrada dos Pinheirinhos, em Perus, na Zona Norte da capital.
O enterro está previsto para as 14h30, na sequência.
Mulher que morreu após deslizamento na Brasilândia completou 47 anos 9 dias antes do desastre